Aug. 14, 2020

Cafezinho 307 –O Otário

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Ivan Pavlov foi um médico russo que fez um experimento interessante cerca de um século atrás. Reuniu alguns cães e começou a condicioná-los. Cada vez que chegava com comida, Pavlov tocava uma sineta, até um ponto em que, mesmo sem comida, bastava acionar a sineta para que os cães começassem a salivar. Pavlov desenvolveu a ideia dos reflexos condicionados.

Todos temos reflexos condicionados, a maioria deles naturais. Diante da visão de um cachorro rosnando com os dentes à mostra, imediatamente ficamos com os músculos tensos. Estamos condicionados a preparar a fuga ou o enfrentamento diante de uma situação de perigo.

[Vinheta do Plantão Globo]

Olha aí, ó. Isso que você sentiu é um reflexo condicionado. Mas também podemos ser intencionalmente treinados a reagir de forma condicionada a determinados estímulos.

O que aconteceu com nossa relação com as mídias foi isso então, anos de condicionamento recebendo más notícias, quebrando expectativas, vivendo desilusões nos treinaram para o que somos hoje: uma sociedade desconfiada, cética, que sempre espera o pior. Quase não há mais espaço para o deleite, para curtir uma boa nova, para acreditar que alguém está fazendo algo bom. O otimista, o que acredita, o que confia no bom, no belo, no justo, é um otário.

Não acho que dá pra justificar, mas dá pra explicar. É só olhar para nossa história de traições, desilusões, cizânia e inveja. De tanto apanhar, criamos uma casca emocional grossa.

Parece impossível baixar a guarda e simplesmente curtir, saborear a notícia boa e compartilhá-la para que, por exemplo, outros copiem as boas ações. Há que se buscar o sofrimento, pintar o pior cenário, dizer que aquela boa notícia não merece crédito.

Como Cães de Pavlov, estamos condicionados a babar.

Isso sim é que é herança maldita.

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